Crédito Cris Magalhães / SME

A Prefeitura do Natal escreve um capítulo histórico de solidariedade e transformação social ao estruturar o acolhimento pedagógico por parte da Rede Municipal de Ensino de Natal aos novos estudantes da etnia Warao. O grupo, formado por refugiados indígenas venezuelanos que encontraram na capital potiguar um abrigo contra a fome e a crise humanitária, representa um desafio que a Secretaria Municipal de Educação (SME) abraçou como prioridade.

A secretária adjunta de Gestão Pedagógica, Naire Jane Capistrano, iniciou uma mobilização intensiva diretamente nas unidades escolares que servem como porta de entrada para esses estudantes, como a Escola Municipal Jornalista Erivan França, que atende 17 venezuelanos, e a Escola Municipal Professora Terezinha Paulino de Lima. Por meio de visitas técnicas, a gestão central uniu forças com as equipes locais para converter a barreira do idioma em uma ponte para a cidadania.

Naire Capistrano destaca que o foco central da estratégia é o desenvolvimento de metodologias que respeitem a complexa identidade desses estudantes. “Estamos empenhados em desenvolver estratégias para integrar os estudantes Warao à nossa cultura escolar, garantindo que, além de frequentarem as aulas, eles se sintam verdadeiramente acolhidos. Nosso projeto, coordenado pelo professor Rudson Gomes e com apoio da UFRN, reconhece a diversidade desses alunos que são, simultaneamente, imigrantes, refugiados e indígenas. O desafio é grande, mas buscaremos parcerias para assegurar o aprendizado da Língua Portuguesa e a plena aquisição dos conhecimentos escolares”, afirmou a secretária adjunta da SME-Natal.

No cotidiano das escolas, a chegada do grupo trouxe uma mistura de sensibilidade e novos desafios de convivência. A gestora pedagógica da Escola Municipal Jornalista Erivan França, Poliana Epaminondas, relata que o primeiro contato com as lideranças do abrigo foi um marco emocional para o corpo docente. “Quando soubemos que receberíamos as crianças venezuelanas, houve apreensão, mas o contato com o líder do grupo mudou nossa perspectiva. Ele explicou que o maior desejo dos pais é que seus filhos aprendam a ler, escrever e compreender a história do Brasil. Percebemos que as crianças são extremamente assíduas e empenhadas, mesmo após feriados. No entanto, enfrentamos desafios culturais, como o comportamento recatado das meninas e incidentes de resistência à autoridade feminina por parte de alguns meninos, situações que exigem diálogo constante para acolher as diferenças e reafirmar nossa posição pedagógica”, explicou a gestora.

A responsabilidade de alfabetizar em uma nova língua ecoa diretamente na regência de classe, onde a prática exige sensibilidade extrema. A professora Joana D’arc Santos, que atua no 4º ano do Ensino Fundamental, expressa a profundidade da missão ao lidar com crianças que possuem um idioma nativo distinto. “Sinto um desafio imenso ao receber alunos indígenas que falam uma língua diferente. A principal preocupação dos pais é o aprendizado do português, da História do Brasil e da Matemática, e me sinto profundamente tocada pela necessidade de encontrar estratégias que garantam a inclusão real dessas crianças. É uma missão complexa, mas essencial para que elas não fiquem à margem do processo de aprendizagem”, destacou a docente.

Para sustentar esse avanço, a estrutura administrativa das escolas também passa por adaptações. A gestora administrativa Vera Lúcia Nascimento aponta que o domínio do idioma é o obstáculo mais imediato a ser vencido para que o acolhimento seja efetivo. “A principal barreira é a língua, pois a aprendizagem só ocorre onde há comunicação fluida. Estamos em um processo de adaptação, buscando entender o suporte da Secretaria para lidar com questões como a distorção idade-série e o acolhimento de alunos mais velhos que os demais. Nosso foco é o letramento funcional, preparando o aluno para interpretar o mundo de formulários sociais a cartazes públicos, consolidando sua autonomia”, destacou Nascimento.