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 A aura e a energia dos queridos objetos

Escritos da Alma

A aura e a energia dos queridos objetos

Ao longo dos meus sessenta e cinco anos de passagem por este lindo planeta azul, em pleno gozo da matéria, confesso uma paixão especial por alguns objetos que me foram — e ainda são — muito queridos.

Sandálias, camisas, malas, mochilas, óculos, escovas de dente… Companheiros silenciosos de uma existência, testemunhas de caminhos, viagens, descobertas e tantos momentos que, de alguma maneira, ficaram impregnados neles.

Há objetos que nos acompanham por anos, às vezes por décadas, numa parceria silenciosa e incrível, feita de reconhecimento, proximidade, serventia e uma espécie de carinhosa convivência.

Recentemente, voltei de mais uma viagem pelo exterior levando apenas uma simples malinha preta, antiga companheira de tantas jornadas. Nunca se perdeu, jamais foi revistada, nunca deu pane. Suas rodinhas continuam funcionando, o zíper permanece impecável e, apesar das marcas do tempo, ela segue firme, cumprindo sua missão com uma dignidade que me encanta.

Sinto amor pelos objetos.

Tenho carinho por seus desempenhos e, confesso, sinto até uma certa necessidade de utilizá-los, como se, ao usá-los, eu também desse sentido às suas existências.

Já cheguei a pensar em guardar alguns deles numa espécie de “museu de mim mesmo”. Mas logo percebi que seria quase uma condenação à inação aquilo que ainda pode ter utilidade.

Então, mesmo velhos, gastos, riscados ou surrados pelo tempo, prefiro acreditar que, em outras mãos, poderão experimentar novos ambientes, conhecer outras histórias, servir a outros seres e proporcionar felicidade, sempre e sempre, a outros alguéns.

Além de gostar de panelas, tênis, bermudas, camisas ou qualquer outra coisa que faça parte do cotidiano, também sinto necessidade de usá-los.

Quando demoro muito para utilizar algum objeto, às vezes penso que ele pode estar triste, abandonado em algum canto, sentindo-se inútil e esquecido.

Por isso, vou revezando todos.

Uso um, depois outro, numa espécie de escala afetiva, para que nenhum se sinta desprezado, esquecido ou menos querido. Afinal, não quero provocar ciúmes entre eles nem alimentar achismos sobre minhas supostas predileções.

Até quando vou tomar um café num shopping e o garçom pergunta:

— Açúcar ou adoçante?

Respondo:

— Um de cada.

E, diante do olhar curioso, explico:

— Para que ninguém sinta ciúmes do outro.

Misturo os dois, tomo meu café e fico alegre, contente e satisfeito, imaginando que, de alguma maneira, acabei fazendo justiça entre aqueles pequenos companheiros da minha vida.

Existe por aí uma máxima, uma espécie de espiral que sempre retorna ao essencial:

Amar a todos. Servir a todos.

Concordo.

E acrescento, com toda a simplicidade de quem aprendeu a enxergar beleza nas pequenas coisas:

Os objetos também merecem nosso mais genuíno amor e gratidão.

Porque talvez eles não tenham alma como nós imaginamos ter.

Mas carregam nossas histórias.

Guardam nossas marcas.

Participam das nossas andanças.

E, de tanto permanecerem ao nosso lado, acabam recebendo um pouco daquilo que somos.

Talvez seja essa a aura das coisas queridas:
não está propriamente nelas, mas naquilo que deixamos nelas de nós mesmos.

E, quando chega a hora de partir para outras mãos, talvez não estejam indo embora.

Talvez estejam apenas continuando a viver.

Flávio Rezende
06 de setembro de 2026 — 17h51
Bar da Vó — ATLAN
Ponta Negra, Brasil
Planeta Terra

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