
Crônica de Flávio Resende: Escritos da Alma – A arte de se safar –
Escritos da Alma
A arte de se safar
Vivemos uma existência cheia de desafios. Entre eles, um dos mais importantes: o de se safar — safar-se dos problemas de todos os tipos.
Escroques, falsários, produtores de fake news, ladrões, políticos perigosos, religiosos oportunistas, românticos de araque e até familiares interesseiros estão por toda parte. Safar-se bem virou arte. E também necessidade permanente: da hora em que abrimos os olhos até o momento de fechá-los, dando tchau ao dia.
Nos deslocamentos cotidianos, enfrentamos um trânsito nervoso, tomado por maus condutores e por seres que se tornam perigosos quando questionados sobre suas próprias gangueirices. Cruzamos com bêbados, drogados e olhares atravessados que vêm — às vezes — bons demais para serem verdade.
Encontramos antagonistas políticos, especialmente os doidos varridos: os que acreditam em terra plana, os que defendem famílias altamente criminosas enquanto posam de paladinos da justiça e dos bons costumes. Há também os especialistas em arrancar alguns reais alheios com todo tipo de presepada, além das vestais modernas, cheias de discursos, propostas, filosofias e dogmas prontos para consumo rápido.
Safar-se desse mundo de gente ruim e interesseira tornou-se uma arte absolutamente necessária.
Agora mesmo, aqui no Suvaco — bar onde saboreio caranguejos — um rapaz meio alterado, inquieto, passa em direção à pia e me encara. Na velha técnica de me fazer de doido, desvio o olhar e observo, pelo canto do olho, o seu comportamento.
Muitas vezes, pessoas fora do padrão mínimo de normalidade procuram apenas um olhar qualquer para criar confusão, armar barraco e agredir — verbal ou fisicamente — por motivo nenhum.
Estou adentrando o portal dos 65 anos. Nunca me envolvi em brigas de trânsito ou de bar. Nunca respondi “oi, gatinha” do Facebook. Nunca acreditei em elogios de princesas do Instagram. Não atendo ligações apócrifas e tampouco dou crédito — nem voto — a falsos messias.
E sigo bem.
Até agora, livre de trambiques, oportunistas, mentirosos e amigos interesseiros. Feliz, ativo e consciente de estar do lado certo das coisas.
É arrochar o colorau — au, au, au — e ser feliz.
Bar do Suvaco, Ponta Negra, Natal
Dezesseis dias do quinto mês do ano de dois mil e vinte e seis.
15h


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