
Escritos da Alma – Presentes Onipresentes
Há presentes que chegam embrulhados em papel colorido. Outros vêm em forma de palavras, abraços, lembranças e afetos. E há aqueles que a vida entrega sem aviso, disfarçados de acaso, para que apenas mais tarde possamos compreender seu verdadeiro significado.
Foi assim que vivi os dias que antecederam e marcaram meus 65 anos.
Recebi carinho por todos os lados. Vieram mensagens pelo WhatsApp, Facebook, Instagram, telefonemas, abraços e sorrisos. Ganhei alguns mimos materiais e fui presenteado com elogios que aqueceram o coração.
Mas houve um presente que não cabia em caixa alguma.
Talvez o mais precioso de todos.
Minha filha preparou, pela primeira vez na vida, um prato de comida especialmente para mim. Não era apenas alimento. Era amor transformado em gesto, uma memória que jamais deixará a mesa da minha existência.
E então a vida resolveu escrever um roteiro inesperado.
Enquanto esperava a hora de assistir aos adoráveis Minions, fui caminhar. Avistei um homem em situação de rua dormindo na calçada, protegido apenas pelo céu e pela companhia inseparável de seus dois cães. Ao passar, um deles imaginou que eu representava algum perigo para seu companheiro de vida e avançou. A mordida rasgou meu braço, mas não minha serenidade. O homem despertou imediatamente e, com uma simples sandália nas mãos, interrompeu o ataque.
Lavei o ferimento com água e sabão em uma lanchonete próxima. No dia seguinte, procurei o Hospital Giselda Trigueiro para iniciar o protocolo da vacina antirrábica.
Foi ali que recebi o presente que não esperava.
Durante quase toda a vida utilizei a saúde suplementar e tive poucas experiências com o Sistema Único de Saúde. Conhecia o SUS mais pelas estatísticas, pelos debates e pelas notícias do que pela vivência.
Desta vez foi diferente.
Encontrei profissionais atenciosos, organização, acolhimento e respeito. Depois, no posto de saúde de Ponta Negra, onde prossegui com as doses seguintes da vacina, essa impressão apenas se fortaleceu.
Saí dali pensando na imensidão do Brasil. Um país continental, repleto de desafios, desigualdades e necessidades quase infinitas. Ainda assim, existe uma rede pública que diariamente acolhe milhões de pessoas, muitas vezes sem que percebamos o tamanho dessa conquista civilizatória.
Ali compreendi que eu não havia recebido apenas uma vacina.
Recebera uma lição.
Quem passa pela experiência deixa de enxergar o SUS apenas como uma instituição. Passa a enxergá-lo como pessoas. Médicos, enfermeiros, técnicos, recepcionistas e tantos outros servidores que transformam políticas públicas em cuidado, esperança e dignidade.
Sempre procurei caminhar ao lado dos que mais precisam. Apoiar causas sociais, acreditar na solidariedade e defender políticas públicas sempre fizeram parte da minha trajetória. Mas viver essa experiência na própria pele ampliou minha percepção.
Meu maior presente de aniversário foi recuperar um pouco mais da fé na humanidade.
Descobri que ainda existem estruturas construídas para proteger vidas, aliviar dores e acolher quem precisa, independentemente da condição social, da religião, da ideologia ou da conta bancária.
Esse talvez seja o mais belo dos presentes: quando um fato aparentemente negativo nos conduz a uma compreensão maior sobre o ser humano e sobre a beleza silenciosa de quem dedica a vida a cuidar da vida dos outros.
Por isso, celebro.
Celebro meus 65 anos.
Celebro minha filha e seu primeiro prato preparado com amor.
Celebro cada mensagem recebida.
Celebro cada abraço.
E celebro, sobretudo, a oportunidade de ter encontrado, em um momento inesperado, um Brasil que funciona, acolhe e salva.
Que aqueles que desacreditam das campanhas de vacinação, que enxergam os mais vulneráveis apenas através do preconceito ou que desejam extinguir tudo o que é público possam, um dia, experimentar não a dor, mas o aprendizado. Que descubram que uma sociedade só se torna verdadeiramente grande quando ninguém é deixado para trás.
No fim das contas, os maiores presentes nunca cabem nas mãos.
Cabem na alma.
Luzzzz.
Flávio Rezende
15 de julho de 2026.
Sempre Rock. Natal. Atlan. Planeta Terra. 21h40.


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